domingo, 18 de maio de 2008

Pratos de Carne



Pratos de carne


Quanto à carne, o porco que foi rei e senhor, ainda mantém um lugar de destaque, embora os genuínos cabritos e borregos façam as delícias dos mais exigentes, sendo também de referir a crescente disponibilidade da saborosa carne de javali.


Os maranhos (miúdos de cabrito ou de carneiro e outras carnes, como presunto, paio) bem temperados com pimenta e hortelã, constituem a especialidade da zona sudeste da região - zona do pinhal.


O sarrabulho ou sarapatel (cozinhado com miúdos de porco) é muito típico por alturas das matanças.


A carne de galinha e de coelho, quando criação de casa agrícola, são muito saborosas e lá diz a sabedoria popular: "Cautelinha e caldos de galinha não fazem mal a ninguém".


A caça foi uma grande fonte de carnes, muito apreciada, com destaque para os coelhos bravos, lebres, perdizes, pombos e patos bravos, tordos, rolas, galinholas e codornizes.


Sendo a perdiz uma das espécies mais apreciadas, é interessante referir o que o saber do povo conta sobre o seu ciclo de vida:


"Em Janeiro, busca o parceiro.

Em Fevereiro, faz o rapeiro.

Em Março, faz o covacho.

Em Abril, enche o covil

Em Maio, pipi para o mato

Em Junho, maior que um punho

Em Julho, enche o certulho

Em Agosto, toma-se-lhe o gosto..."

A sopa na panela de ferro



Poejo

A sopa na panela de ferro

A velha panela de ferro, tão negra, cheia de fuligem por fora e tão limpinha por dentro do uso diário que lhe é dado durante grande parte do ano, durante várias gerações, continuou ao lume.
Hoje só em ocasiões muito especiais é que se utiliza.

Estando a panela já arrimada ao lume com a água necessária, antes de ferver botam-se-lhe os ingredientes: batatas bem descascadas, couves não migadas mas ripadas à mão, nabiças ou feijão verde (conforme a época), cebola e alho, uma folha seca de loureiro, um tomate descascado e uns raminhos de hortelã e poejos. Junta-se uma farinheira e uma morcela (se for a seguir à matança do porco, pode juntar-se um osso, dando à sopa um outro sabor)
Tudo deve cozer em lume brando, demoradamente (mais de uma hora). Depois, o enchido e os ossos são retirados e, pacientemente, com uma colher de pau e um garfo, as batatas são esmagadas. No caso de não haver enchido, falta juntar o tempêro, sal e azeite, deixando a panela em cima das brasas para mais umas fervuras.
Fica assim pronto o saboroso caldo, um pouco espesso mas sem ser puré, que é meio sustento.

A Gastronomia da Beira Baixa



A gastronomia


A província da Beira Baixa também é riquíssima na sua regionalidade gastronómica.

O seu património gastronómico não pode deixar de ser a influência do solo e do clima, mostrando como o Homem se relaciona com a Natureza.

Como refere Jaime Lopes Dias, na sua compilação "Etnografia da Beira" (11 volumes), os antigos tinham a mesa como sagrada e é à sua volta que a família se reúne e se estreita a amizade a e hospitalidade.

Estrabão, ao referir-se aos Lusitanos, escreveu: "Comem principalmente carne de cabra e na quarta parte do ano, os montanheses não se mantêm senão de bolotas, que secas e trituradas, transformam em farinha da qual fazem pão, o qual pode guardar-se durante muito tempo".

Não restam dúvidas de que o modo de produção e os próprios produtos da economia de subsistência que marcaram esta região durante muitos séculos, moldaram a alimentação.

Dando um salto para os finais do séc. XIX, quando o rei D. Carlos se deslocava à Beira Baixa para a caçada ao javali, o seu ajudante, General Filipe Malaquias de Lemos, conhecedor da região, recomendava em relação ao que o rei devia comer:

"... acho de primeira ordem a orelheira, a miga e o feijão frade e tudo o mais que for beirão...

No menu, falta fruta e talvez uma morcelinha assada no espeto estivesse a calhar!

Não vale a pena ir peixe de Lisboa.

É preferível arranjá-lo aí no Ponsul ou no Tejo...

Comidas e bebidas...tudo daí, com o pão das Beiras e o vinho da terra... " *


De facto, foi à volta dos produtos da região que se foi enriquecendo a criatividade e o engenho gastronómico da população da Beira Baixa, dentro da fragilidade e temperança que caracterizou o viver da nossa gente.

Quanto ao pão, elemento essencial das refeições da Beira Baixa, era feito até há pouco tempo, sobretudo de farinha de centeio, tendo sido antes utilizada a bolota, a castanha e a farinha de milho (broa).

A par da importância do pão, está a sopa ou o "caldo" que, cozido lentamente na panela de ferro no lume da lareira, juntando a batata e os legumes da horta e secos, cebola e alho, temperado com carne de porco (da salgadeira ou enchidos) ou apenas com azeite, constitui um alimento substâncial e muito saboroso.

Em relação à fruta, para além da fresca (maçãs, pêras, cerejas, pêssegos) o destaque vai para a azeitona, a castanha (cruas, cozidas, assadas ou piladas) os figos maduros ou secos (passas de figos) as bolotas de azinho (que ainda hoje se assam ou cozem como as castanhas e são um verdadeiro pitéu) e os medronhos.


* - Jaime Lopes Dias - "O Rei D. Carlos na Beira", pág. 11


sexta-feira, 16 de maio de 2008

Os Costumes - 2

Os Costumes - 2

Outros usos e costumes se podem ainda encontrar na Beira Baixa.
De caracter religioso, encontramos a Festa do Espírito Santo, largamente implementada pela Rainha Santa (séc. XIII) e que ainda perdura, embora com algumas modificações.
Encontramos também as festas aos Santos Populares, na triologia de Santo António, São João e São Pedro, realizadas no mês de Junho.
Destas festas populares, falarei mais tarde.

Com caracter de culto pagão, vamos encontrar as "Maias".
Em Maio, começo do ano em tempos primitivos, celebra-se a "vida nova". Para festejar o "retorno à origem", grupos de rapazes saiem para o campo, onde colhem ramos do Maio (giesta) e se enfeitam. Antigamente, cobriam um deles com flores dos pés à cabeça e percorriam a aldeia cantando e pedindo castanhas ou dinheiro.
Em algumas aldeias fazem bonecos de palha ou trapo, que cobrem de giestas e colocam às janelas e nos campos para se protegerem das trovoadas (Monsanto)

O princípio de Agosto é muito importante, porque traz as "canículas".
É através delas que se faz a "previsão metereológica" para todo o ano seguinte. Na parte oriental da Beira Baixa, as "canículas" são contadas de 1 a 13 de Agosto. Já na parte ocidental, vão de 15 de Agosto a 28.
O 1º dia diz como será o ano, o 2º dia vai corresponder a Janeiro, o 3º dia a Fevereiro e assim por diante.

Na altura dos Santos (1 de Novembro), é uso as raparigas oferecerem aos noivos e namorados um folar, que eles retribuirão na Páscoa com um saquinho de amêndoas.
Nos proclames do casamento, costumam os noivos oferecer aos amigos, vinho e tremoços.
A festa de casamento também tinha contornos interessantes.
No dia do casamento, o noivo e convidados dirigiam-se à casa da noiva. Era uso encontrar a porta fechada. O noivo batia à porta e o pai da rapariga atendia:
- Quem é e o que deseja? (pai da noiva)
- Sou Fulano... e procuro mulher, honra e fazenda! (noivo)
- Entre, que tudo encontrará! (pai da noiva)
Agora já não se trocam estas frases. A noiva sai de casa pelo braço do pai e assim se dirige à igreja, seguida dos padrinhos e dos seus convidados. O noivo, padrinhos e convidados deste, vão atrás, fechando o cortejo.
Após o casamento, os noivos agora lado a lado, encabeçam o cortejo que deve regressar por uma rua diferente. À porta dos noivos ou dos padrinhos, disputa-se a "rebatina". "Rebatina" é a distribuição pela rapaziada de tremoços, rebuçados e amêndoas.

Get this widget Track details eSnips Social DNA

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Os Costumes - 1

Os Costumes - 1



Na noite de Ano Novo é de uso, em muitos locais, manchar as portas com farinha. Este costume relembra o "milagre das portas", que se conta como sendo passado logo após o nascimento de Jesus. Um soldado de Herodes conseguiu localizá-lo e marcou a porta com farinha, pois era de noite e ele não conhecia bem aqueles sítios. Quando voltou com mais companheiros,terá achado todas as portas marcadas e teve de desistir da busca.
Também é costume cantar as "Janeiras" pelo Ano Novo ou na noite de Reis (6 de Janeiro).

http://pt.wikipedia.org/wiki/Janeiras

Carnaval na Beira

Antigamente, pelo Carnaval, era costume juntarem-se grupos de rapazes que, subindo aos lugares altos das povoações, "choravam o Entrudo".

Consistia essa brincadeira em fazer uma série de sátiras em verso, aos vizinhos e outros habitantes da região. Claro que os do grupo procuravam disfarçar a voz e por isso falavam, geralmente, através de um funil.

Na zona da Sertã era costume "repartir o burro". Consistia na distribuição das partes do burro (teoricamente) pelas pessoas e situações que se queria criticar.

http://poesiaquesinto.blogspot.com/2008/01/repartir-o-burro.html

Na Quaresma é costume, que ainda se realiza na maior parte das aldeias e das vilas, fazer a "encomendação das almas". Há um grupo que canta versos alusivos e outro que responde, rezando. Em muitos locais o Pai Nosso do responso é rezado em silêncio nas casas. Também deu origem, em algumas povoações, a uma procissão de penitentes. Em alguns sítios, realizam-se à noite e com grupos restritos. Noutros, durante o dia. Em S. Vicente da Beira, a Ordem Terceira de S. Francisco comemora os grandes dramas da Paixão com diversos actos e uma solene procissão, já secular, chamada Penitência. Realiza-se de tarde e nela participa todo o povo da região.




Get this widget Track details eSnips Social DNA

terça-feira, 13 de maio de 2008

Os Costumes



Os Costumes




A região da Beira baixa viveu muito isolada durante séculos. Os usos e costumes passavam de pais para filhos pelo exemplo das suas práticas, enquanto as lendas e tradições iam sendo transmitidas ao serão, junto à lareira.
Essa situação está hoje muito alterada pelos factores do progresso. Há, no entanto, ainda usos e tradições de raízes tão profundas que têm conseguido sobreviver.

Pelo Natal é costume queimar-se, no adro da Igreja, um grande madeiro (1) que se destina a aquecer o Menino que vai nascer e evitar que haja gente com frio nessa noite (2)



.http://dias-com-arvores.blogspot.com/2004/12/madeiro-do-natal.html





A forma de encontrar o “madeiro” varia de terra para terra. Em algumas, faz parte da tradição que seja roubado, noutras é alguém que o oferece, por promessa.
No primeiro caso, e para que não se saiba quem o roubou, vão de noite, os homens embuçados e cobrem com mantas os bois que puxam o carro (hoje, esta prática está em desuso. Nas terras que ainda acendem o madeiro, este é trazido pelos grandes proprietários em tractores e colocado no adro da Igreja). Em algumas terras da raia, era costume os moços mancebos (3) saltarem a fronteira para roubarem o madeiro do lado espanhol.
À meia-noite, em todas as povoações, o povo aproximava-se do madeiro acesso, dançavam e cantavam em redor da fogueira e provavam as filhós (4).
Nos concelhos onde não era costume queimar-se publicamente o madeiro, fazia-se em cada casa uma bela fogueira na lareira, que ficava a arder toda a noite. Deixavam também a candeia acesa e a mesa posta com filhós, para quando o Menino chegasse, poder encontrar agasalho.

(1) – Madeiro – Normalmente composto por grossos e volumosos troncos dos sobreiros mais secos, velho e carcomido e que já abrigou, no seu seio, dezenas de gerações


(2) O calor emitido pelo braseiro era tal, que chegava a fazer arder as portas das igrejas…todo o adro ficava aquecido… Há ainda hoje povoações onde o tradicional madeiro faz parte integrante do Natal, como o Presépio e a respectiva árvore (pinheiro enfeitado).

(3) Mancebos – o grupo de rapazes que entravam nesse ano para a recruta militar eram que estava encarregue de “roubar” o Madeiro… Na raia com Espanha, a aventura consistia em passar a fronteira (clandestinamente) e trazer o madeiro previamente localizado e escolhido (o que implicava várias idas ao território vizinho). Esta tradição, provavelmente, remonta à Idade Média, representando a eterna rivalidade entre Portugal e Espanha.

(4) Filhós – Tipo de doçaria própria do Natal. Desde o amassar até à fritura, era o trabalho das mulheres, enquanto os homens tratavam do madeiro.


segunda-feira, 12 de maio de 2008

A fauna Beirã


O lince ibérico - na região da Beira Baixa, o lince está confinado à serra da Malcata, com poucos casais reprodutores.


A Fauna Beirã



Fauna cinegética -




Afora os voláteis de pequeno e médio porte (pardais, corvos, melros, etc.), a Fauna beirã baseia-se nos espécimes herbívoros e carnívoros, típicos das zonas mediterrânicas: coelho, lebre, raposa, lontra, lince, águia, lobo e javali. Estes quatro últimos quase extintos.




Os caçadores, os incêndios e o aumento populacional (séc. XVIII e XIX), ou os afugentaram ou liquidaram. De realçar os resultados e a nomeada das caçadas reais ao lobo e javali, que o rei D. Carlos levava a efeito na Isna, Monfortinho e Malpica do Tejo.




É também de referir que a zona do Tejo Internacional é o reduto da cegonha negra, na Europa.








Fauna venenosa -




Afora a crendice supersticiosa e geralmente indocumentada, devemos reparar na usança do povo ao dizer " Se a víbora ouvisse e o liso visse, ninguém existia no Mundo". Deve-se referir que na Beira Baixa, tal como em quase toda a faixa mediterrânica, se encontram animais cuja mordedura, além de dolorosa, pode ocasionar a morte.




Estão neste caso, e pertencendo à ordem dos répteis,: a víbora e o licranço (cobra de vidro ou liso).





Da família dos aracnídeos, existe a tarântula, o escorpião e a centopeia.



Além destes, e menos perigosos, ainda se encontra a sanguessuga, o sapo, a osga ou saltarroscas, e a salamandra.




Do grupo dos insectos, encontramos a vespa, a abelha, a torresma e a mosca dos bois.